Ás vezes me pergunto se o sorriso do meu pai em minha direção expressa orgulho ou conformismo. Depois de dizer pelos cantos com minha mãe, que era contra à minha exposição com uma namorada para a família que mora longe, deixaram nas minhas mãos, a tarefa de encarar uma tia que comanda a festa de fim de ano, e pedir à ela que me deixasse levar 'uma amiga'. Por que eu teria que ter medo? Peguei o telefone, liguei, conversei. Trato feito. Segunda, bem cedo eu vou. Achei que iriam me olhar com um rosto triste, ou bravo. Mas meus pais sorriem. É, essa sou eu, será que agora conseguem ver minha felicidade? A mala está pronta, faltam algumas coisas. Sei que não vou dormir nada esta noite. Nada. Não sei se como, me deito, ou lavo alguma peça de roupa que pode me faltar lá. É só um sítio, eu sei. Mas ela vai junto. É, ela vai! Quem mandou eu sonhar demais...
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A torneira gotejava sem parar, contando os segundos. Comi com fome, ansiedade, tudo aquilo que fiz, de aparência não muito boa. Olhei pra cima, algumas roupas penduradas, já secas, talvez fosse hora de apanhá-las. Atrás das roupas, a visão era melhor: algumas plantas, aquela grama baixa, uma piscina suja e meu cachorro com cara de cansado. Cansada estava eu. De brigas, de gritos. De mim, que já não parecia eu mesma. Há pouco atrás, havia conseguido ter as mesmas sensações do tempo em que sabia de tudo sobre mim. Mim, eu, sei lá. Fiquei pensando o que este natal preparou pra mim, e me senti cansada de sonhar. Alto demais, não posso. Me enfraqueço, tentando convencer outras pessoas de que é possível, e quando mais preciso, me encontro no quintal, contando os segundos junto com uma torneira perseverante. Acho que, essa data pra mim já não faz sentido nenhum, vejo pela cara do meu pai quando as contas chegam e ele não parece nada receptivo. Tudo é simbólico demais. E hoje à noite, sorrisos...
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Minha cabeça dói um pouco, o corpo está cansado, e nem sei bem o porque, mas escrevo. Talvez porque hoje é vinte e três, quase véspera de natal. Importa pouco eu sei. Pra mim, importa pouco. Só que parece que foi ontem que entrei naquele carro, com todas as lágrimas querendo fugir pelo rosto, nem acredito que fui tão corajosa. E penso, que devo ter deixado essa coragem por lá, quando fui, por entre as árvores, ou as pracinhas daquela cidade. Espero que toda minha coragem, ainda esteja lá, porque terei que ir buscá-la. Forte ou não, irei. Mania de sofrer por antecipação, a única coisa que faço, é pensar no lado bom da tal situação. Não brigarei com minha mãe, porque ela não vai estar lá. Não terei que fazer as coisas do jeito dos outros, porque não terão outros lá. Estarei só. E quero poder ficar só, só de verdade. Acho que só assim, pra buscar minha identidade, que, embora eu já tenha comigo, talvez possa eu, entregá-la aos meus pais, se ainda não acreditam que não fui corrompida por ...
Coisas da madrugada, lembranças a posto.
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Chegou tomando espaço, criou um laço e amarrou bem forte. Me mostrou caminhos, carinhos e desejou sorte. Foi preenchendo mais, foi até capaz e me desafiou. De longe, me mostrou o amor, mesmo com dores. Me ensinou o nome de flores, me mostrei menina, ela me viu mulher. Me entreguei a sonhos, fechei meus olhos, aprendi a beijar. Chorei de medo, mas me encantei. Minha professora, sem fetiche algum no ar. Minha mulher, tens o que quer, se em mim encontrar. Sou tua aqui ou em qualquer lugar, Minha pele ou da cabeça aos pés, o meu cheiro já persegue o seu. Não tem jeito, nosso encaixe é perfeito, afogado no silêncio ou no carnaval que só em meu peito, procura se acalmar. Me vejo menina a te contemplar, ela num ritmo que me pulsa sem controle. Mulher ou menina, indiferente. Sexo nem tão frágil, mas ágil e quente. Se não es mulher, não entende. Mas voltando à ela, a história que comecei a contar... Nem nunca haverá um fim, se depender de mim. Da menina mulher que me mostrou o amor... E que hoj...
É, nossa vida começa agora, eu acho.
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Acordei com todos aqueles sonhos, das noites anteriores, embaralhando minha visão. Sorri quando lembrei que aquele ainda era o quarto da casa dos meus pais. Mas era um dia a menos aqui. Otimista isso? Não sei bem. Pessimista seria, se eu dissesse que hoje era um dia a mais aqui? Ainda é dezembro, tentei me acalmar e deixar essas coisas para depois. É melhor eu me iludir que se vive um dia de cada vez, que nunca se sabe o que pode acontecer e que a gente tem cinquenta por cento de chance de conseguirmos o que queremos. Pela manhã tive a notícia, que embora eu já tinha dentro de mim, por ter uma pequena dose de realismo, coisa que colocaram forçadamente na minha cabeça. É, não deu Sofia. Encarei com força. Escutei alguns resmungos, pequenas comemorações ao som da voz da minha mãe, alguns conselhos fora de hora, andei depressa, fui pro quarto. Talvez seja melhor assim. Talvez, ser só, ficar longe de amigos, da família, seja um avanço. Com doses de saudade e sofrimento claro, mas preciso s...
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Me deu um medo de mim. Acordei num impulso, como nos dias em que usava armaduras pelo corpo e não acreditava no amor. Como se não tivesse amado por tanto tempo. Levei o dia com um pedaço de raiva pendurado no pescoço, seu eu mesma ver. Era melhor gritar por hoje mesmo. Fiz tudo nos conformes de um dia normal, escutando os gritos da minha mãe. Ela está sempre insatisfeita, a pobre. Com tudo e com todos. Mas eu via em seus olhos que aqueles gritos podiam ser substituídos por pequenas frases, de mesma relevância ou talvez mais cruéis. Era isso que ela queria. Escutei tudo, mais um dia, com ânsia de poder vomitar pela casa coisas que guardo há tempos. Melhor não, melhor não . Um sorriso no meu rosto é uma ameaça a felicidade do resto. Reclamações, resmungos e afins. Foi quando escutei que eu, sou uma vergonha. Vergonha para a sociedade. Uma ameaça. Várias e várias vezes... e eu ri. Ri alto, como se eu fosse mesmo uma vilã. Era melhor tratar tudo assim. Vergonha, não seria talvez, ter que s...