Uma mistura de nostalgia, medo e sofrimento me comem aos pouquinhos, desde quando acordo até ao deitar. Peço ao tempo, um pouco mais de paciência. Não que eu não tenha vivido tudo intensamente, mas quando me assusto existe uma longa história atrás de mim que nem eu conseguiria contar ao todo. Gente ao meu redor, muita gente. E eu, que ao mesmo tempo, preferiria não precisar de nenhuma delas, preciso. Meu silêncio grita, berra pedindo que o mundo me inclua nele, pelo menos pra eu provar. Bebo mais silêncio, me contento com os sorrisos e conto a mim e a mais um alguém o que se passa aqui dentro. Sendo esse alguém quase eu mesma, consigo me divertir por horas ou minutos. Ah, se todo esse céu falasse. Não sairia tanto silêncio de mim. Eu sinto falta de algo que nem sei se já tive. Mas sinto. Busco dentro de mim, algo que complete o que falta. Porque isso tem que estar comigo, e não do lado de fora. Tem que estar. Mas, e se não estiver? E se eu for assim, incompleta, por faltar algo que não está comigo? E se não estiver com ninguém? Eu preciso que acreditem, eu preciso. Há uma coisa faltando aqui, eu sei. Todas aquelas cócegas, e minha vontade maluca de correr para o banheiro, depois de anos sem fazer xixi na calça me fez perceber. Não depende de mim, só de mim. Mas se sobra algo aí dentro, me mostra pra eu ver se completa aqui. A parte que falta. Ou que faltava.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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