Procuro observar as sombras, de cada cômodo, para me certificar que são somente sombras. Eu sei que serei forte pra estar sempre certa de que não há mais nada fazendo barulho, a não ser os carros lá fora, as folhas se mexendo no jardim, e foi exatamente por ter essa certeza, que deixei minha janela aberta. Eu serei forte, para que quando não for somente sombras, e folhas se mexendo, ou não for algo que caiu do nada de cima da estante, eu vou vou sim, me levantar diante do que for, e vou encarar. Dizer que faça o que quiser, que vou estar protegida, por Deus. Dizer que sou muito ignorante para simplesmente pedir que siga uma luz, e posteriormente pedir que Deus mostre uma luz, e que siga. É, siga, e por favor, me deixe em paz. Talvez, nada do que eu diga agora, não faça o mínimo sentido. Eu queria que não fizesse. Mas já que cheguei até aqui, eu vou continuar. Eu hoje, prefiro conferir em cada detalhe do meu quarto, em cada lágrima minha que cai muitas vezes, sem motivo, em cada grito que dou e que escuto. Em cada sonho, cada dor inesperada, cada falha de memória. Eu não quero transferir a culpa a ninguém. Mas tudo indica a isso. Tudo me leva a isso. E digo, concerteza, que se tocar em alguém que amo, mostro o monstro que guardo dentro de mim, que escondo atrás desse corpo aparentemente frígido, quebradiço, efêmero.
O computador não para de piscar. O celular não tem bateria na metade do dia. Minha cabeça trabalha, analisa, pensa. Mas só ela. Eu havia dito que o destino era algo em que eu confiava bastante, e que fazia total sentido tudo que está acontecendo. Ele sequer havia trazido carta alguma... até então. E eu completava que uma hora o destino tinha que conspirar a meu favor. Apesar de eu tropeçar em tanta confusão, tudo que não quero é me machucar ou machucar outras pessoas. Então faço minha cabeça trabalhar, mas deixo meu coração guardado. Ou melhor, ás vezes deixo ele olhar com cautela o olho mágico da porta do quarto, mas quando a abro ele corre pra debaixo das cobertas com medo. Depois de deixar tudo ficar bem bagunçado, Yui chegou com um envelope nas mãos, vindo do Brasil. Não quis olhar muito, guardei. E quando toquei nele de novo, olhei as letras, estremeci e alguém bateu na porta. Meu coração foi na frente, checou no olho mágico e depois fugiu. Guardei o pacote de novo e fui gastar ...
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