Procuro observar as sombras, de cada cômodo, para me certificar que são somente sombras. Eu sei que serei forte pra estar sempre certa de que não há mais nada fazendo barulho, a não ser os carros lá fora, as folhas se mexendo no jardim, e foi exatamente por ter essa certeza, que deixei minha janela aberta. Eu serei forte, para que quando não for somente sombras, e folhas se mexendo, ou não for algo que caiu do nada de cima da estante, eu vou vou sim, me levantar diante do que for, e vou encarar. Dizer que faça o que quiser, que vou estar protegida, por Deus. Dizer que sou muito ignorante para simplesmente pedir que siga uma luz, e posteriormente pedir que Deus mostre uma luz, e que siga. É, siga, e por favor, me deixe em paz. Talvez, nada do que eu diga agora, não faça o mínimo sentido. Eu queria que não fizesse. Mas já que cheguei até aqui, eu vou continuar. Eu hoje, prefiro conferir em cada detalhe do meu quarto, em cada lágrima minha que cai muitas vezes, sem motivo, em cada grito que dou e que escuto. Em cada sonho, cada dor inesperada, cada falha de memória. Eu não quero transferir a culpa a ninguém. Mas tudo indica a isso. Tudo me leva a isso. E digo, concerteza, que se tocar em alguém que amo, mostro o monstro que guardo dentro de mim, que escondo atrás desse corpo aparentemente frígido, quebradiço, efêmero.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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