Tem dias que eu tiro, involuntariamente para pensar na minha vida, de uma forma ruim. Sem estudar, sem nada para ler, sem poder escrever, sem você. Sem você por perto, sem você ter existido, sem você ter me beijado ou sem você ter voltado dizendo que tinha saudade. Contabilizo as discussões, mania de filha de contador, aquela coisa dizendo : 'vamos fazer o balanço, falta algo? Sobra algo?', como se amor, fosse algo a se medir. Eu sei que chega a ser podre. Mas depois que li um pouco as coisas que me mandou, e depois que li Clarice, percebi como somos. Ou pelo menos comecei a entender. Aquele ápice da felicidade, pedindo que alguém aqueça o ambiente e a ponta do sorvete derreta e desmorone no chão. Aquela mania que temos de lutar tanto pela felicidade e quando conseguimos chegar perto, uma carrega a outra, está logo ali, em cima do muro, pega! Pega! Mas aí a que está por baixo não aguenta e cai, dizendo que na verdade, nem queria tanto assim o que estava lá em cima, mesmo sabendo que era a felicidade. Me vem um desespero que só você conhece, se não as lágrimas, vem meu toque irônico mal feito, porque só você sabe ser assim. E ao contrário do que quero, não te faço ter medo de eu ir embora. Você acaba sendo um cubo de gelo que me faz parecer criança, e ao mesmo tempo, me faz ter que crescer. Menina idiota, que só sabe chorar. É, sou eu. Mas é que a menina das mãos geladas sou eu, e quem as aquece é você. Porque você tem as mãos quentes. Sinceramente eu não sei como e nasci sem você por perto. Quantas noites eu dormi com três edredons enquanto podia ter tido você aqui, sem precisar talvez de nada a não ser um lençol? E por que eu nasci e consegui viver até te conhecer, sendo que se te perco hoje, amanhã eu morro? É, eu sou extremista mesmo. Além de precipitada, desesperada... e apaixonada.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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