Essa pinta de careta que me consome pelas noites mais intensas. Esse mundo inteiro que vejo espalhados em rostos tão distintos. As ruas tão desconhecidas e simultaneamente tão bem vindas pra mim. Pra minha vida. Tudo isso, e aos poucos um pouco mais de rostos e vozes finas me fazem permanecer exatamente onde estou. Me fazem firmar quem sou, o que quero e o que (ainda) detesto. Sinceramente, criei asas. Mas isso não quer dizer que vou sair a voar por aí, sem destino. Quer dizer que conheço um pouco mais de tudo e todos. Mas ainda sou figurante pelas ruas, e sabe bem, que odeio entrar em cena. Odeio, porque tudo muda, do oito para o oitenta. E se mudar, talvez não volte nunca mais ao que era antes. Vou ser sempre careta, calada, e observar cada detalhe. Vou estar provavelmente sóbria, sem medo de fazer nada do que realmente quero. Eu nunca precisei forjar nada. Eu só digo que, sigo o ritmo da música, sempre. Mas se trocar a vitrola meu bem, se trocar a vitrola... talvez eu cante pra mim. Ou talvez eu conheça músicas bem diferentes e, mesmo fora de cena, eu dançe lá no fundinho, discreta e sem jeito, como sempre fui, e sempre serei.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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