Pela primeira vez, depois de muito tempo, senti o que é o tédio. Senti uma ponta, foi como nostalgia. E procurei analisar cada detalhe desse tipo de dor que mistura preguiça a tristeza. Quase me vi sem os pés, ou sem as mãos. Me lembrei das tardes sozinha no quintal, numa cidade onde não gostava muito de morar. Desenhava nas pedras de ardósia, contava histórias, cantava sozinha, e tentava imaginar como seria o mundo lá fora de casa. As ruas nos domingos e feriados eram sem graça, não havia nada e ninguém. Doía profundamente. Aquilo sim era o tédio. Não é isso que dizem quando não se tem nada a fazer e, continua-se conectado com o mundo num computador. Não é nem aquilo que dizem quando se tem somente preguiça. Tédio é o que sentia quando chegava naquela cidade do sul, fim de domingo, cansada de chorar, ligava a tevê e não conseguia mais parar de sentir dor e saudade. Era quando eu tinha uma janela que dava para os fundos, via uma casa pobre onde uma criança chorava sempre. Era quando eu contava quantos quilômetros eu estava longe de tudo que eu queria e nem um telefone bastava. Ora comia demais, ora ficava horas e horas sem comer. Ora dormia continuamente por doze horas, ora levantava pela madrugada chorando, buscando alguém que estava quatrocentos quilômetros mais longe. Era só um abraço que eu queria. E aquele dizer (mesmo mentiroso ás vezes) de que vai ficar tudo bem. Que fosse esse "ficar tudo bem" com minha morte. Eu só queria o fim do tédio. Mas hoje, a diferença foi que eu não estava só. Foi brilhante, ver a nostalgia se desvairando com aquele abraço, e com aquelas palavras: - "Não vai haver distância. Eu vou estar sempre aqui. E vai ficar tudo bem."
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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