Acordei pela quarta vez, na sala com colchões espalhados. Fiquei olhando teto, bonito. Uau! Dois mil e onze. É clichê, mas eu caio na minha frase todos os anos. E me causa nostalgia. Que mais eu faço? Penso: o que eu estava fazendo há um ano atrás? Bem, estava no trem, voltando pra casa com ela, e perguntando se seria legal, não fechar as janelas de alumínio (ou o que quer que seja) quando pedissem, porque eu queria saber se era verdade o índice de apedrejamento. Eu tentei contra a vontade dela e, deixando uma fresta aberta, avistei um muleque sem camisa mirando a abertura com um tijolo. Fecha! É, foi divertido. Eu me lembro que disse: olha, aqui é Santa Bárbara, cidade da Mariana. Depois escutei as histórias de escola, que, confesso, me chocaram e me deixaram com medo. Senti naquele chão frio, saudade da minha família. Está sempre perto, mas há um quê de distância. Mundos diferentes, talvez. Me sinto na porta de casa, com as malas meio abertas, roupas pulando pra fora. Não sei bem pra onde vou. E queria alguma certeza. Qualquer uma, pra fingir que estou segura. Eu tenho um amor. É, eu sinto amor sim. Mas ter... é complexo e angustiante. Antigamente, quando eu definia que tinha, ele me escorria antre as mãos e gritava que eu havia perdido. Além do mais, ter e sentir podem ter sentidos múltiplos. Porque eu, quero um pouco mais do que falas e status. Mais do que "o que você fez ontem e onde foi?". Quero aquele trem de volta. Quero mais cócegas. Eu sei que é hora de crescer. Mas me dá só mais dez minutinhos... por favor...
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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