Saiu e chegou de todos os recintos, sentindo a tinta escorrer pela testa: erro. Era o que tinham escrito por ali. E exibia, como um troféu. Afinal, já se esclarecia que conserto não havia. "Nasceu assim, pobre. Vai ficar só. Ninguém aguenta tanto erro." Foi fazendo aos poucos, a questão de errar, pra saber então no que mudaria. Nada, pois erro por erro, não haveria que anular nada. Só somaria. Então, preferiu viver a vida, como se não houvesse erro algum em parte alguma. "Têm razão", afirmava sempre que os gritos estridentes começavam. Só queria paz. Nada de drama, voz de morte, de dor, que se quer existe. Se lágrimas significassem dor, talvez estaria líquida. E sobrevive. Até vive mesmo. Contente. Com os erros. Sem satisfações, sem pesos. Mas a mãe continua a gritar lá fora. Ás vezes o telefone grita. Ás vezes o olhar assusta. É quando ela passa o dedo na testa e conserta a palavra escorrendo: erro.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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