Se eu for pensar, eu acabo me lembrando de tanto que já fiz por ti. Do tanto que lutei, quis matar meu mundo, quis me matar, te matar. Eu lembro do quanto chorei, em vão, sozinha, com o mundo nas costas e todo mundo gritando em cima: Está indo longe demais!. Se eu for pensar, eu depositei minha confiança no vácuo, e depois que ela se foi, fiquei fria. Hoje, espero o mínimo de educação. Hoje eu quero viver o hoje e nada mais. A gente vai levando, chutando a pedra na rua, pra ver onde vai dar. Mas nada demais. Eu bebi nas últimas saídas, mas não sinto nada demais. Eu resolvi desenhar e não mudou muita coisa. Sabe, não tem gosto de mel, nem fel. Não fede tanto, nem cheira tão bem. É por esse caminho que eu vou andando. O amor? Ele existe, claro. Mas talvez tenha mudado a cor, a temperatura e talvez ele também esteja cansado de querer ser alguma coisa que não é, e nunca foi.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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