Fechei meu corpo pro mundo, para todo mundo. Fui me encolhendo de medo, voltei à fase embrionária. Não quero ver o que tem nesse corpo. Fujo de espelhos, guardo meus receios e não há porque acreditar em palavrinhas mágicas. O vestido curto das noites passadas, faziam parte da fantasia que armei. É pra ninguém julgar demais, o que sinto com o que sou. Sempre fui desse jeito, sem gosto demais por mim, e no dia em que a mudança veio, eu vi, tenho certeza que eu vi a mentira entrar junto! Não vou falar que me odeio. Tenho bastante respeito. Mas eu sei que esse frio, esse medo constante de descobrirem a fraude que sou me enjoa, me dá ânsia entende? Meu corpo continua fechado, não quero nada, nada, não confio em mais nada. Eu quero meu mundo de volta. Que soprem aos quatro ventos a careta e estranha que sou. Me respeito, quero meu ritmo, minha vida pequena dentro do quarto escuro. Já não mais a garota que fizeram crescer e acreditar que essa imensidão dentro e fora da gente é linda e perfeita.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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