As ruas costumavam me inspirar mais. Cada pedacinho de concreto, cada esquina com um ponto de luz, eram como fontes de esperança pra mim. Eu costumava ser mais mole, tão emocional que escorria pelas tais ruas, deslizava e até hoje não sei como não me tiraram nada, nem cinquenta centavos no bolso. Eu costumava sonhar um tanto, um tanto que quebrava a cara todo dia e na mesma noite, voltava a sonhar. Eu sei, eu sei que é ridículo ficar contando o que fui, mas é que dá uma puta vontade de voltar atrás. Não que eu faria diferente, sou covarde demais pra mudar tudo. Eu só queria aquela menina de volta. Aquela que começou a escrever aqui. Com todos os erros do mundo que eu sempre tive, mais os sonhos tolos e infantis de uma garota de dezessete anos.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
Comentários