Entre copos que exalam verdades, a bebida descia amarga no início. Mas depois de um certo tempo, certos goles somente me esquentavam. Nem sei como permaneci com um vestido tão curto, sentada, pegando vento. Sei que a um certo ponto, suas palavras me sustentaram e provavelmente me esquentavam também. Foi digna de ser enterrada naquele quintal, como uma lembrança, que embora embriagada, tinha um borrão como nos sonhos que tenho. Um borrão, como as nuvens que escondiam a lua. Eu buscava uma referência, alguém conhecido pra firmar meus olhos, mas ela estava escondida. Olhei pro chão, arranquei plantinhas, segui o copo que ficava vazio, mas não deu pra escapar, voltei a olhar pro seu rosto, de onde saía tudo que eu queria ouvir.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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