O lábio superior tem mais volume. O sorriso, mesmo de boca fechada, é largo, mas sereno. Olha por cima dos óculos, pensando numa frase pra zombar de mim. E na minha visão periférica, posso pegar me olhando de cima a baixo. Critica tudo, todos, mas principalmente tudo em mim. Só posso sorrir e me reafirmar, é claro. Minhas roupas, e falas, e manias, e meu corpo, minha mente, meu romantismo, meu medo de cachorros, meu medo de sentir medo do amor, meus pulos de nervosismo, meu piercing. Mas então, eu não falo, mas odeio suas críticas do nada, suas intromissões na minha roupa, cabelo ou bolsa, ou maquiagem, sua mão boba, sua mania de dizer que eu não cozinho nada (mesmo que seja verdade), sua mania de querer que eu implore por sua presença e permanência aqui, suas histórias fictícias pra eu sentir ciúmes, sua mania de insistir em alguns assuntos pra me deixar com mais ciúmes (porque eu não demonstro, nem que eu sangre o olhar). Você odeia? Então eu odeio também.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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