Parece tarefa fácil, mas não é. Ir lá no fundo das caixas, no final do guarda roupas, onde acreditava guardar meus sonhos antigos, ou coisas que se foram, mas que de certa forma deixavam um gosto bom, pelo que foi um dia. Mas foi. E se guardei até então, era com esperança no coração de que um dia, as coisas ruins fossem embora, e a calma voltasse, junto com um pouquinho de cordialidade que fosse. Até então, não veio. Tentei que viesse, mas não deu mesmo. Daí, aprendi em horas, de forma forçada que é melhor tocar o barco como ele estiver. Com mágoas, ódio ou seja lá o que for. Cartas no lixo, coisas rasgadas, bonecas desenterradas. Tudo um dia tem que desaguar, ir pra algum lugar, pra renovar com vontade, de verdade a alma.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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