A água não dá pé. Por vezes eu enxerguei o fundo conseguia andar e sentia tudo bem fresco. A gente finge que vê assim com um ar de casualidade algo que já está pra lá de complexo. Sabe que vai afundar, quiçá afogar nesse rio que hoje já está escuro demais, mas não desiste. Minhas metáforas são podres eu sei. Mas é que não sei dizer nada puramente claro. Me falta o ar, eu nunca encontro as palavras mais objetivas. É um mal sempre me perder nisso. Nas palavras e não saber chegar a uma simples conclusão. Dou voltas e voltas no mesmo lugar, minha cabeça se confunde, se perde. Minha mãe em relances na frente do espelho, me pergunta sobre seu vestido novo. Respostas monossilábicas enquanto aqui dentro gritam tão alto, mas tão alto que a única grande frase que consegui dizer foi "fecha a porta do quarto pra mim, por favor?" num tom nada agradável. Eu não quero machucar ninguém, mas olha, estão me ferindo por querer, enxergam? Eu tenho uma porção de coisas boas aqui dentro pra serem entregues a alguém, as minhas mãos tremem 'e se não for exatamente isso?' como vou dizer? Na primeira oportunidade eu corro pra dentro do quarto e olhando pras cortinas reagirem contra o frio lá fora, busco mais uma vez, alguma resposta pra algo tão simples. Se eu sumir de todos os lugares prováveis, acreditem que foi o melhor. Eu não sei até onde vai a amizade, se começa amor, se eu já amo, e se deveria jogar tudo que tenho fora e começar tudo outra vez. Vez em quando eu abaixo a cabeça na água e vejo o quanto tempo consigo ficar sem respirar. Afinal de contas, preciso prevenir acidentes. Caso eu esteja mesmo indo fundo demais em qualquer coisa, preciso aprender a afogar sozinha e a sobreviver depois de voltar à terra.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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