Vejo pela janela do quarto que... é, não tem muito jeito. Estou esquecendo que envelheço também. Que essas cortinas me viram crescer. Principalmente eu, que sempre vivi dentro do quarto. Ninguém mais me conhece tão bem, como as cortinas, o espelho sujo com adesivos velhos, as mesmas fronhas coloridas (hoje com as cores bem mais opacas). Opaca eu que estou. Desculpem-me. Eu continuo voando... mas entre pousos e pousos chega a me dar uma ponta de vontade de parar de vez. Olha, as cortinas nem cor de creme são... já não fazem sentido aqui. Nem as cortinas, nem meus desenhos espalhados pela parede. Apenas os valores que conquistei na época em que ficava trancafiada no quarto. Elas sim fazem sentido. Mas eram exatamente elas, que me mantinham tão feliz, mesmo sendo sozinha. Envelheço dentro do quarto, mas minha mente, ah, essa vai longe. Ela é o pajarito.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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