Sem tempo pra pensar. E mesmo assim, ainda consigo ter a cabeça latejando. Lateja estranho, como se fosse a dois anos atrás. Tudo de novo, só que diferente. O que lateja não é por raiva, ódio ou repulsa. Acho que é porque o calor voltou. Não deve ser porque fui ingênua demais, por tanto tempo e a sensação é de que serei sempre, ingênua a ponto de sorrir ao diabo e lhe apertar a mão. Nem mesmo por todas as lembranças ruins que hoje fazem todo o sentido do mundo. Todos os dias sem explicação hoje sorriem pra mim, dizendo que fui tola. Todos os lugares que mais gostei de andar, hoje me causam pavor. Mas o que me faz latejar de dor é que tenho tanta coisa boa a fazer e não consigo. Pedro Juan estava na melhor parte e não o quero mais. As músicas entram e saem sem diferença alguma. Está quente, dispensei a coberta mas senti pânico na madrugada sem elas. Preferi suar. Preferi não olhar ipês, nem o sol, nem escolher refrigerante, eu não mereço. Preferi chegar em casa e cerrar tudo com mais trabalhos.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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