Eu já havia dito que queria, que fosse por instantes, saber quais cores ela enxergava, onde faltava luz e queria entender porque abrir a janela não parecia o suficiente pra sorrir todos os dias. Mas é impossível viver a vida dos outros. É impossível que eu sempre pense do lado de fora e esqueça de lembrar de que dentro de mim, existem minhas cores, a luz que enxergo e minha janela. Quando pude, eu disse como as coisas podem ser mais coloridas. Não há nenhuma perfeição no mundo, tudo bem. E se cair, errar, se machucar e machucar os outros faz com que as cores se desgastem e ganhem tons escuros ou cinzas demais, é abrindo a janela, todos os dias, mais e mais uma vez que as cores podem se renovar. É o que eu digo e o que eu posso fazer. Mas acredite: cada um faz por si, a vida é insubstituível. E desistir dela, não faz da gente menos errante.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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