Utópica moda de ser livre, por um cigarro entre os dedos e copo meio cheio de bebida forte. Quanto mais forte, menos gelo. Quanto mais foda, mais erva. Quem conhece pó é o melhor. Em casa iogurte fino, videogame, edredon colorido, canais fechados, marca na blusa, tênis importado, inglês fluente, shampoo profissional, guitarra por hobbie, pele sensível, doença nas unhas, cirurgia plástica, viagens internacionais. Mas é radical escrever 4:20 no muro da vizinha pobre, que tem um filho da sua idade procurando emprego mas não consegue porque deixou a escola de lado e tem a cara preta marcada pelo preconceito. É radical hackear, trair, usar, cheirar, injetar, consumir, espancar, mentir, debochar, fingir e humilhar. E ainda cospe à meia boca que vive uma ideologia pura, baseada no natural e na igualdade, nas lições do passado onde gritavam paz, amor, sexo e rock and roll. Tsc tsc.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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