Vive nesse jogo de quem se sente sempre amado, mas soou como pedido em cartinha ao papai noel pra que eu escrevesse. E digo sempre e tanto de todas as formas que até hoje me couberam na mente, sobre esses olhos que ficam imensos atrás dos óculos, do mesmo jeito que é seu coração atrás da carinha meio amarrada. Desaprendi com o tempo e por circunstâncias passadas a dizer e a não ter medo de repetir, mas é que sua gargalhada me gozando a cara por tantas coisas que sou ás vezes me mete medo. Enquanto fiquei calada, percebi o quanto o mundo é grande, com gente demais por aí, e, olha bem quem anda me ligando todas as noites. Era só alguém um tanto intocável pra mim. Juro. Mas é claro que meu quarto com bichinhos de pelúcia e desenhos estranhos nunca receberia quem tanto tinha história, meninas, malas, cidades e mais histórias. Ou melhor, receberia sim. E levaria consigo uma vontade imensa de rir, bem alto. Mas é que sou assim mesmo, como vê. E o medo em mim, ficava maior quando sabia que não sou dessas que muda por alguém. Pinto cabelo, troco as roupas, mudo de casa, cidade, esmalte, curso mas ainda sou eu. E serei sempre a mesma. E me pego tempos depois escutando pedidos totalmente estranhos ao telefone. E sua exaltação em se colocar como a parte que me deixa platonicamente molenga na cama, olhando pro teto, não cola tanto, se eu sei que seu corpo fica mole também. Esse medo de andar na rua sem segurar minha mão. E essas frases encaixando pronomes possessivos, me induzindo a dizer os imperativos, porque eu sei que gosta de me ver fazendo pedidos também. Não falo por ser mais uma, mas por ser eu. Sigo o ritmo de quem ama mesmo, derreto, me encolho e procuro mil vezes você em cabides, álbuns musicais, livraria, frases feitas, frases não feitas, desenhos, fotografias, perfumes, dancinhas engraçadas e o seu olhar quando olho pra baixo, eu, mais uma vez mole. Em contrapartida, te acuso sem ter provas concretas sobre me procurar todos os dias em algum lugar por aí. Que seja no samba que diz que vai deixar mais alto quando chegar pra esquentar a cama de vez.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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