Das filosofias de ônibus que adquiro, acredito que a que mais uso é a que escutei um dia totalmente desatenta (como quase sempre) quando uma senhora conversava ao telefone e contava da depressão de outra fulana. Depois de descrever o estado deplorável que ela chegou a se encontrar, algumas consultas com um terapeuta e a solução da moça seria, segundo receita médica, mudar de vida. Com uma frase simplória que soava realmente vitoriosa, e, não por ironia mas aquilo realmente sempre deveria ser constatado como remédio pra quase tudo que parece perdido na vida não é? Quando me saiu um tom de voz um tanto bizarro, como quem queria rir, mas não podia. A senhora explica que para isso, a moça antes deprimida cortou o cabelo tipo channel, pintou de preto e fez logo duas tatuagens. Que era pra mudar tudo de vez.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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