Debruço na janela, mas essa rede me espanta. Não faz nada, não corta, não repele, não machuca, mas espanta. Ás vezes eu só queria mesmo peitar melhor o que tem lá fora. Faço tudo tão correto, desço pelas escadas, encaro a porta e faço de tudo pra não bater forte. Ando sem incomodar e me sinto quase sempre incomodando. Minha regra é não dar trabalho. Ser só e suficiente. Mas vê, que nem a janela ás vezes, pode ser amiga. Nem os amigos sempre podem ser amigos. Eu conto com pontos de exceção. E faço deles a regra. Porque na verdade nunca tiram essa rede da minha janela. Na verdade as pessoas andam com pressa, fazem tudo bem correto, descem as escadas e não batem a porta porque há um bilhete dizendo que existem outros quinze apartamentos ali. Na verdade o normal é se sentir atrasado, centrado e dentro dos prédios, sentindo saudades de um outro mundo. Aquele, atrás da rede da janela.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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