Eu não entendia porque todo mundo fechou as cortinas. Com um ônibus tão alto e com janelas enormes, eu só queria mesmo ficar por conta da lua. Eu sei que ando fugindo de um bocado de coisa, mas fugir pra lua sempre me parece uma ótima solução. Qualquer lugar que me deixe brilhando, ou que me esconda no seu brilho. O ônibus andava, corria, e eu sentia que era exatamente isso que eu queria: correr. Senti frio a ponto de sentir dor, foi como um acordar pra várias coisas. Mas das coisas unilaterais que a vida tem, percebo que se sentir sozinho é algo inevitável nesses casos. De ônibus gelado, fuga pra lua e vento forte embaçando o vidro, me dei conta de que solidão é algo que me acompanha de forma nítida. Não sei se porque quero. Não sei se quero. Mas sei que assim é. Quando não no físico, minha mente ainda viaja sozinha, perdida em certas multidões onde frase nenhuma, bebida nenhuma, cigarro algum faz sentido pra mim.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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