Eu não entendia porque todo mundo fechou as cortinas. Com um ônibus tão alto e com janelas enormes, eu só queria mesmo ficar por conta da lua. Eu sei que ando fugindo de um bocado de coisa, mas fugir pra lua sempre me parece uma ótima solução. Qualquer lugar que me deixe brilhando, ou que me esconda no seu brilho. O ônibus andava, corria, e eu sentia que era exatamente isso que eu queria: correr. Senti frio a ponto de sentir dor, foi como um acordar pra várias coisas. Mas das coisas unilaterais que a vida tem, percebo que se sentir sozinho é algo inevitável nesses casos. De ônibus gelado, fuga pra lua e vento forte embaçando o vidro, me dei conta de que solidão é algo que me acompanha de forma nítida. Não sei se porque quero. Não sei se quero. Mas sei que assim é. Quando não no físico, minha mente ainda viaja sozinha, perdida em certas multidões onde frase nenhuma, bebida nenhuma, cigarro algum faz sentido pra mim.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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