Não entendo o sentido, de qualquer forma, mas depois que chego à multidão me sinto melhor. É quando quase me perco de vista, nesse lugar onde tudo é muito e sou só mais uma. Me sinto melhor em ser só mais uma, e saber disso de forma nítida, em calma e sentindo paz. Mais uma que erra, mais uma que pode se dar mal. Talvez seja por isso. Ameniza a dor quando tudo pode dar errado. Afinal, dar errado é normal pra todo mundo. Os cinquenta por cento de chance sempre pairam sobre minha cabeça, mas vai saber se é a metade boa ou a metade ruim. E no meio de tanta gente, mercado, ruas, comidas, bebidas, papéis e buzinas, vai saber quem é que vai me encontrar. Ás vezes é melhor se perder por aí. Onde as chances e proporções aumentam. Fica tudo gigantesco. Eu, minúscula, procurando simplesmente andar, esconder meus fracassos e me sentir comum. Por não ser tão forte e não saber lidar com tudo. Por querer as coisas mais simples e até agora, lograr muito pouco.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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