Consegui um travesseiro maior. Mais fofo. Uma delícia. E eu, que nem ligava de dormir sem um. Nem ligava de dormir sozinha, de acordar suando por botar duas cobertas no verão. Um frio que não saía de mim. Mas aí, a Ana veio, esqueceu a escova de dentes e sempre que podia, esquecia de novo. No primeiro dia eu achei graça, olhando do espelho, uma escova a mais na casa, na segunda vez eu me assustei, mas resolvi deixar lá mesmo. Mas aí, quando ela ia embora eu sentia falta do travesseiro. Que eu não ligava de não ter, mas que seria ótimo se por acaso eu tivesse. E ando trazendo mais edredons. Porque eu tenho que dar um jeito até junho chegar. E vou me virando até ela voltar.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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