Aquele tempo milagroso, onde qualquer riso era fácil e farto, qualquer programa parecia o melhor, qualquer fim de tarde bebendo coisas ruins, falando sobre nada parecia a melhor coisa do mundo, um passado rico em felicidade, em pessoas animadas, hormônios aguçados, fertilidade para o amor, hobbies raros, gostos compartilhados, uma explosão de sorrisos e gargalhadas que ainda escuto quando ouço todas as histórias. Mas eu, bem, eu sempre chego tarde. Sempre atrasada para o melhor que a vida já deu.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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