Diz que sempre fala tudo e tem uma pose de quem gênio forte, não aguenta calada e não sofre por nada, com o rosto rígido, fechado pro mundo próprio. Mas reconheço cada traço inseguro. Na falta de fala que na verdade é mais ausente do que parece, no gaguejar que se esconde com uma espécie de pausa reflexiva antes de terminar as palavras, e estas, se alongam deixando a frase lenta, profusa. Nessa hora, dirige o olhar para o "nada", sem foco algum e mexe as mãos um pouco fora do ritmo. Algumas frases se repetem, uma, duas vezes, reafirmando algumas coisas, que eu acredito não poder esquecer nunca. Mal sabe disfarçar o que desgosta, olhando pra mim, mas me engole, sem cuspir nada, e ás vezes se pega rindo sobre o quanto sou diferente do que ela sempre olhou nas morenas por aí. Talvez acorde do meu lado e vendo o quanto sou branca, se desespere, ache graça do que fez. E a graça vem da frase que ela disse algumas vezes, sobre eu ter que amá-la pra sempre. Quase cena de filme, logo comigo, eu quis rir. E ela explica, esperando ser correspondida, que ela vai.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
Comentários