Como se não bastasse os vários seres que crio aqui dentro, a fim de não me sentir sozinha, não consigo dormir sem conversar um pouco. Ensaio conversas do dia seguinte, me declaro antes com medo de errar, peço perdão tentando me explicar, faço planos pra amanhã de noite, pro fim de semana, pra casa que vou comprar, a cor do quarto da menina, ou do menino (e acabo ficando no amarelo mesmo, amarelo pastel vai muito bem pros dois!). Falo das coisas que nunca disse a minha mãe, ás vezes choro um pouco, e volto para a parte em que meu futuro vai muito bem. Sempre com esse ar de quem quer mais, mas lá no fundo são só planos. Não que sejam poucos, ou que sejam só. É que pensar assim, encurta o caminho que na verdade é cheio de curvas, e obstáculos. Vou passar por eles, é claro. Mas saber o que me espera, e me espera porque eu quero, é uma das melhores coisas que descobri antes de pegar no sono.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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