Como na época que não sabia medir sozinha o espaço para passar da porta, hoje não sei medir o espaço do tempo que tenho. Que terei. E terei muito, eu sei. E assim como eu me machucava sozinha aos treze anos, esbarrando nas pernas da cama, perdendo as canelas, os ombros nas portas o rosto no armário, meu medo é esse. Me embolar nas minhas próprias pernas hoje, cair sem saber levantar, deixar o tempo passar desfilando na minha frente tudo que perdi. Ou deixo ele ir, eu o prendo na mente, calculando quantas horas exatamente terei para entreter o coração aos fins de semana ou quantos dias espero para as unhas crescerem outra vez. A ansiedade as cortou pelo pé.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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