Sob a meia luz do quarto levanto sentindo dor no pescoço, mau jeito por ter cochilado em cima de tudo que estava na cama. Me esqueci do quanto estou cansada e disse que ia sair hoje. Saí contando como se fosse a coisa mais legal do mundo e nem é. Me esqueci que fazer amizade pra mim parece um desafio enorme, e que o fantasma infeliz conhecedor dos meus pontos fracos volta e fica perambulando. Fiquei horas pensando sobre esse discurso que as pessoas fazem, olhando pra minha vida e pensando em quantas bocas e histórias elas já pousaram enquanto eu simplesmente amava uma só mulher. As pessoas não são muitas, só são consideráveis. As pessoas me consideram, mas são poucas. Sempre preferi assim, mas me confundem, e em um momento elas somem. Voltei a trabalhar, acendi a luz e não arrumei a cama. Tomo um banho logo, boto a roupa de frio e desejo que eu não me arrependa de sair do apartamento.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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