Não queria começar a escrever ainda no Brasil. Tenho a sensação de que pioraria a situação que me encontro, soltando frases nostálgicas e remetendo também a um passado frustrante, cruel e traumático. Mas cá estou, fraseando. Simplesmente porque crio uma introdução de um longo texto a cada noite antes de dormir, mas sem anotar nada, choro um pouco e deixo o sono levar. Deixar de falar nunca fez bem. Mas descobri que me mostro com uma seriedade antes nunca vista. Pessoas olham pra mim e, tratam meus sentimentos a sério porque assim exijo a quem me importa. E ao aprender, ouvir e assistir esse respeito ao que sinto, as coisas ficam no controle. Mesmo que a dor das partes difíceis lateje um pouco aos fins de semana.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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