Entrei no quarto, três beliches temporariamente vazias. Eu deveria aproveitar o agora. Essa cidade é bonita coisa nenhuma, não entendi bulhufas de como me encontrar aqui. Saí de casa, e me lembro do rosto da minha mãe, me dando tchau de longe porque sabia que, se chegasse muito perto talvez eu abraçaria distante, negaria com os olhos. Doeu assistir, doeu só bater a mão de longe, mas ainda não sei como lidar com ela. Meu pai não parava de falar um segundo se quer sobre todas as coisas que a cidade tinha, teria e como eu deveria ser feliz daqui pra frente. Mas parei de responder "aham" quando ele, nostálgico demais, lembrou de mim e de meus irmãos brincando e correndo dentro da rodoviária. Todo mundo quer me fazer chorar, é isso então? Porque não anda sendo fácil. Não será, nem fácil, nem tão medonho. Ou melhor, qualquer coisa eu aprendo a conviver com a parte medonha da história. Sei que não terei tempo quase nenhum de dizer tchau pra todo mundo, e sinceramente nem queria. Me dói o coração lembrar da Ana me esperando na casa dela aos sábados. E toda essa coisa de estudar demais e ter o colo dela pra descansar. Pronto, já caiu uma merda de lágrima. Como se o último mês não tivesse sido só isso. Vejam bem, por que será que logo agora, que nossos corações entraram em plena sintonia que eu consigo uma chance de mudar minha vida? Vai entender tudo isso. É triste, não adianta, é. Eu tinha traçado uns planos pra não me sentir assim. Mas faltam cinco dias pra começar tudo e eu os perdi por aí. (...)
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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