Aquela festa me deixou à flor da pele do início ao fim. Não gosto muito de lembrar, mas algumas particularidades nunca vão me sair da mente, por coisas tão bonitas e delicadas que se passaram. Eu procurava entre gritos e mais gritos dos copos de bebidas e confusões adolescentes dos meus amigos, um refúgio que me mantivesse na cadeira sem me coçar, sem que meus olhos marejassem mas que me emocionasse. Foi aí que ele chegou. Pediu o violão, de forma tranquila. E escolheu com o coração a única música que tocou. Nem ouvi sua voz, foi muito sereno. E olhou pra mim durante esse tempo apenas pra que tivéssemos certeza de que eu ficaria bem, senão depois, mas durante a música pelo menos. Fez sua parte, me olhou nos olhos e eu senti o desejo de boa sorte.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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