Cheguei ao refeitório enxugando o rosto, pensando em mil coisas tentando
não pensar em nada. Cansada de pegar sempre a mesma comida, escolhi
aquela banca vegetariana que nunca, nunca tinha fila. Até estranho isso.
Mas, ai, deixar de comer carne tem me feito bem aqui. Olhei os
ingredientes e com preguica de falar inglês, disse que queria tudo. Tudo
junto. E o chef simpático me perguntou se podia por pimenta. Concordei
sem vontade de saber o que aquilo ia virar. E ele, mais simpático ainda
quis saber se eu era espanhola. Eu parecia espanhola. Não, Brasil.
Melhor ainda, ele disse. América do Sul, linda América do Sul. Conheci
mulheres na América do Sul que olha, eu me arrependi de voltar pra cá.
Abriu a pimenta. Só um pouquinho, eu disse. E a panela ferveu. Decidi
voltar lá mais vezes. Acho que esse cara me entende. E a pimenta,
anestesiou minha boca, praticamente não sinto mais nada. Pelo menos por
hoje.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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