Cheguei ao refeitório enxugando o rosto, pensando em mil coisas tentando
não pensar em nada. Cansada de pegar sempre a mesma comida, escolhi
aquela banca vegetariana que nunca, nunca tinha fila. Até estranho isso.
Mas, ai, deixar de comer carne tem me feito bem aqui. Olhei os
ingredientes e com preguica de falar inglês, disse que queria tudo. Tudo
junto. E o chef simpático me perguntou se podia por pimenta. Concordei
sem vontade de saber o que aquilo ia virar. E ele, mais simpático ainda
quis saber se eu era espanhola. Eu parecia espanhola. Não, Brasil.
Melhor ainda, ele disse. América do Sul, linda América do Sul. Conheci
mulheres na América do Sul que olha, eu me arrependi de voltar pra cá.
Abriu a pimenta. Só um pouquinho, eu disse. E a panela ferveu. Decidi
voltar lá mais vezes. Acho que esse cara me entende. E a pimenta,
anestesiou minha boca, praticamente não sinto mais nada. Pelo menos por
hoje.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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