Como quiser senhor tempo, eu serei forte o suficiente. Mesmo que tente ser meu amigo, e me mostre os quadros graves em que posso ficar. Mesmo que salve a minha vida, me deixe sorrir abobalhada durante as manhãs, mesmo que depois me mostre que poderia ser apenas um ato de ilusão. Mas não é não. É a vida, passando. É o senhor me ensinando. Dando seus tapinhas nada sociáveis nas minhas costas em dias de cólera. É esse rosto de espanto a cada sexta feira, quando digo que nem dei bola pra você. É minha gargalhada ressoando mais alto e você, sem ter mais o que fazer me abraça e diz que também sente medo mas que vai ajudar a ficar tudo bem. E sua mania de me fazer escrever um dia inteiro e lembrar que está aí, em apenas um dia tão colado a mim que me faz mal. Quando acho que não posso me preocupar com você. Não devo olhar pro seu rosto, ás vezes ele me parece frio demais. Porque na verdade, é real. E eu sei, que nossa relação vai muito além dos calendários nas paredes, alarmes com músicas que me enjoam pela manhã, o sono me fazendo dormir na sala de aula. É sobre o meu cabelo, o meu gosto pelo vermelho e não mais pelo rosa, as rugas, o peito apertado por nostálgicas datas e sobre meus planos pro futuro. Quando penso em crianças, uma casa com cheiro de comida-na-mesa-pra -agora e a vontade de chegar o fim de semana não mais pra dormir, mas pra acordar e lembrar com os mais novos da vida que tive, que tenho e que ainda terei.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
Comentários