Era isso. Aqui o céu anda embaçado, cheio de nuvem soprando no meu rosto, perco o fôlego. Lá, eu deixava a noite me invadir, desde os treze anos eu preferia dormir de lençol, eu preferia o calor, aquele sono que nunca vem e que me deixava ver a lua pela janela. Daí eu parei de reclamar que a janela do meu quarto não dava pra rua e pro jardim, e sim pro quintal. Era disso que eu falava. Quando eu ia dormir com ela e depois dos beijos, do calor, de perder o fôlego, de senti-la inteira, não tinha nada melhor. Era a janela aberta, com a vista pro quintal. E a lua, como sempre engolindo a janela, meu corpo, meu gozo e o calor aos poucos indo embora. Era o tempo de ficar ali olhando até o sono levar a gente embora.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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