O tempo cura um bocado. Na marra, mas cura. Dai a solidão das férias se transformou nesse emaranhado de afazeres, nessas listas que me acompanham todos os dias e que só vejo vantagem quando não sinto o tempo passar. Passei algumas noites chorando e me perguntando inconscientemente quando seria a chegada de um afeto menos material e mais... mais afeto daquela casa cheia de gente de onde saí. Não poderia reclamar, mas, foi como entender que o tempo foi perdido. Entre o sentir falta de algo que pouco se teve aqui se concluiu, e a saudade quando é assim, ela faz doer de forma brusca. E o tempo, como eu disse, cura. Você pode até olhar a cicatriz mas não vai sentir mais nada. Cresci. E agora tudo parece muito mais perigoso, medonho, um risco, um pacto eterno, uma dor enorme, não atravesso a rua, não pulo o muro, não deito no chão. Acho que já estou procurando emprego.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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