De fato, voar sozinha não é fácil. Não por simplesmente não ser. Mas uma vez que se acostuma ser amada, querida e estar por perto, não é tão simples esquecer de tudo e simplesmente ir em frente. Durante todo o tempo, eu tento ao máximo ver as coisas boas que me cercam e sim, elas existem em grande quantidade. O complicado é me conformar com a qualidade. Eu, que durante tanto tempo aprendi a viver contemplando toda a felicidade abstrata da vida, esquecendo o material e cada vez mais dizendo sim a tudo aquilo que se sente e não vê, me vejo buscando refúgio em quase tudo que é supérfluo, pequeno, mas que pode por uns instantes tranquilizar e me fazer sorrir. Quem não ficaria feliz com isso? É o que se passa na minha cabeça. E mesmo que a resposta seja lá no fundo, eu não ficaria feliz com isso, há todo um teatro que me faz ter a força de guardar comigo toda essa merda que me aliena e me mostra apenas que, não há mais nada a fazer, por agora. Eu não sei quem são meus amigos. Eu não consigo me divertir plenamente por aqui. Eu não queria precisar tanto deles. Eu não deveria precisar tanto de afeto. Mas preciso. E a cada passo que dou buscando isso, tudo e todos se afastam mais.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
Comentários