Spring que se insiste em parecer com inverno. Bom, eu sei, combinei de não ficar reclamando, então parei pra pensar em tudo que muda ao meu redor quando o tempo insiste em ficar frio, o céu ficar cinza. Minha cabeça dói de frio, quase sempre. E quando eu boto a touca de lã, o cabelo embola muito, demais. Mas ainda assim eu resolvi andar hoje. E percebi que quando fica frio outra vez, eu tento não dormir tanto. E nem ficar triste demais, porque automaticamente a saudade aumenta. Quando esfria, eu tento não ligar pra dor de cabeça e geralmente penso em gastar meu tempo desenhando. Por isso hoje comprei mais um pincel pra aquarelar, embora eu ainda precise muito de aulas. Quando fica mais frio, as pessoas tendem a se aproximar de você. Então, pela primeira vez, uma senhora me ofereceu carona, mesmo que fosse pra um minuto de conversa até o fim da avenida principal. O atendente da loja mais charmosa de artigos de design estava muito mais atencioso. Eu voltei passando em várias outras lojas, e em uma delas a vendedora ouvia Zeca Baleiro e assobiava a música, até começar outra de Maria Bethânia. Não deu pra estudar hoje, mas quem sabe amanhã não esquenta?
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
Comentários