Existe alguma coisa no ar, um surto que anda levando os pais dos meus amigos embora. Sim, falecendo. E isso me deixa sem chão, a cada semana quando algo acontece de novo, eu me lembro dos meus pais distantes de mim. E no medo que dá perceber que ninguém é eterno. Não que eu não saiba caminhar sozinha, sem eles. Acho que essa fase está quase no fim. Mas seria, e é a partir de agora que começamos a parte de desfrutar juntos o que conquistamos. De qualquer forma, com todas as diferenças, a melhor parte (e eu digo isso com alívio por pensar assim, finalmente) é perceber que eu cresci. Já era infância. Adolescência. Mas que fiquem os meus pais, um pouco mais, que é pra mostrar um pouquinho do que me transformei.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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