Noventa e nove dias. Como eu queria que o dia de hoje chegasse. Quantas vezes eu não entrei em desespero, sem querer contar exatamente quantos dias durariam minha estadia. E hoje, não faz tanto sentido voltar correndo. Ou faz. Ou faz, porque sei e sinto que aqui não é a minha casa. Na verdade ainda não tenho uma. E andar sem referência é o que tenho feito durante anos. Talvez por isso eu deposite tanto nas pessoas, afinal, não é fácil andar tentando sempre me adaptar e procurar refúgio para os momentos mais complicados. Tudo em cordas bambas quando estou sozinha. E cá estou de novo. Tentando me preparar pra dizer adeus a quem me deu certo refúgio, pra dizer "oi" a quem me espera com saudade no peito. Me preparo para não parar, não olhar pra trás, ainda que seja difícil. Pra enxergar a minha vida com seu tamanho real. Porque sei que é muito maior do que penso. Eu sou muito maior do que me vejo. Vejo onde estou. Vejo o que passei. Sinto o que cresci. Ainda que não com tanta exatidão. "Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior".
O computador não para de piscar. O celular não tem bateria na metade do dia. Minha cabeça trabalha, analisa, pensa. Mas só ela. Eu havia dito que o destino era algo em que eu confiava bastante, e que fazia total sentido tudo que está acontecendo. Ele sequer havia trazido carta alguma... até então. E eu completava que uma hora o destino tinha que conspirar a meu favor. Apesar de eu tropeçar em tanta confusão, tudo que não quero é me machucar ou machucar outras pessoas. Então faço minha cabeça trabalhar, mas deixo meu coração guardado. Ou melhor, ás vezes deixo ele olhar com cautela o olho mágico da porta do quarto, mas quando a abro ele corre pra debaixo das cobertas com medo. Depois de deixar tudo ficar bem bagunçado, Yui chegou com um envelope nas mãos, vindo do Brasil. Não quis olhar muito, guardei. E quando toquei nele de novo, olhei as letras, estremeci e alguém bateu na porta. Meu coração foi na frente, checou no olho mágico e depois fugiu. Guardei o pacote de novo e fui gastar ...
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