Depois do aeroporto, depois do primeiro prato à brasileira, depois de todos os abraços “meu-deus-depois-de-um-ano-e-meio”, eu fui para o lugar mais clichê, mais óbvio e mais urgente: meu quarto. Fiquei feliz pelo ventilador na parede porque o calor me derretia - e continua me derretendo. Deitei na cama e depois tratei de procurar alguns bilhetes espalhados entre as roupas nas malas. Eu sabia que encontraria e já me sentia em pânico. Ou sentia amor, mas com saudade. E um pouco de tristeza também. Me perguntei algumas vezes como sempre faço, o porque de tudo isso acontecer - de novo - com alguém que só precisava aprender a ficar sozinha. E quando acreditei que voltar seria apenas voltar, encontro uma carta com frases que eu não esperava ler, mas que dizia exatamente o que eu sentia. Quando tenho um pacote de carinho dentro de mim, eu faço questão de usá-lo com a pessoa que acredito ser a certa. Caso eu não receba de volta, eu tenho a consciência de que preciso seguir o caminho do rio, sozinha. Acreditei que estava fazendo isso, até que abri aquele bolso com um par de tênis e um papel branco caiu. Até que recebi mensagens para que eu mantivesse contato. Até que passei o dia dentro do quarto conhecendo uma nova casa e uma nova família pela tela do computador - meu karma. Então eu volto a pensar que se as coisas aconteceram assim, foi porque elas precisavam acontecer assim. E aceito. Mas sinto muito falta de tudo. Principalmente de todos os segundos em que eu ouvia aquelas expressões gregas misturadas ao português de aprendiz.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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