Detesto ficar presa em domingos, desses nostálgicos quando vou para a casa dos avós e percebo de novo que crescer e enxergar os problemas de perto acaba com qualquer encantamento. Meu avô vai enfraquecendo aos poucos e não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Mas olho para os meus pais e penso que não quero deixá-los na mesma situação nunca. A felicidade ou os momentos felizes se resumem a um cachorro que pula o tempo todo, rouba chinelos e deita no colo dele, enfia a cabeça entre seus braços e espera por carinho até dormir. Ou então assistir futebol e opinar com firmeza sobre resultados e jogadores. Meu avô costumava cantar pra gente, coisas que ele inventava pra no final me chamar de zulunga. Ele merece mais do que isso que tem. Sempre mereceu.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
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