Era minha última semana ali. O almoço de despedida que planejamos foi lindo, mas depois disso o sono bateu e mesmo com tanto a fazer nós duas dormimos. Acordei e já estava escuro, na verdade devia ser cinco horas, mas com o inverno presente a noite chegava rápido. Com a sombra do jardim lá fora, eu via nossas silhuetas na cama. Tentando não chorar, comecei a fazer um cachorrinho com a forma da minha mão usando a sombras e olhando pro teto. Era a coisa mais ridícula a fazer mas não havia escolha. Quando ela acordou, nós rimos juntas até o silêncio chegar, e desse momento pra frente, não tive escolhas: caí aos prantos, e sem falar nada, ela me abraçou e apertou minha mão, até eu deixar sair tudo. De fato congelei aquela cena, e as sombras das listras da cortina no seu rosto. Mas nada será como esse dia.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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