Era minha última semana ali. O almoço de despedida que planejamos foi lindo, mas depois disso o sono bateu e mesmo com tanto a fazer nós duas dormimos. Acordei e já estava escuro, na verdade devia ser cinco horas, mas com o inverno presente a noite chegava rápido. Com a sombra do jardim lá fora, eu via nossas silhuetas na cama. Tentando não chorar, comecei a fazer um cachorrinho com a forma da minha mão usando a sombras e olhando pro teto. Era a coisa mais ridícula a fazer mas não havia escolha. Quando ela acordou, nós rimos juntas até o silêncio chegar, e desse momento pra frente, não tive escolhas: caí aos prantos, e sem falar nada, ela me abraçou e apertou minha mão, até eu deixar sair tudo. De fato congelei aquela cena, e as sombras das listras da cortina no seu rosto. Mas nada será como esse dia.
Voltei.
Voltei lá no tempo em que escrevia bastante. Quase sempre, quando dava. Mas dava mais do que dá hoje. Li várias vezes um texto antigo que escrevi para alguém. E dediquei o dia de hoje a pensar na pessoa que me transformei nos últimos três anos. Não confio em quase ninguém, e me dedico menos ainda a quem amo. Não sei mais explicar quando sinto amor. Não leio tanto mais, me amedronto com estranhos nas ruas, com ônibus lotados ou vazios demais e com a solidão. Logo eu, com medo da solidão. Ganhei um amor daqueles que sempre pedi, sem dor, sem tanto medo e com uma mochila nas costas. Só falta eu decidir quando será a partida. Mas às vezes acordo, olho para a cama e pro rosto dela deitada, dormindo e me pergunto se eu mereço tanto. Sinto que faço pouco. Escrevo pouco. E essa menina, ela merece tanto, tanto que o meu espelho do banheiro me fala todos os dias, que preciso trabalhar menos e amá-la mais. Voltei do trabalho hoje e a casa que vive infestada de gente, entrando e saindo está vazia...
Comentários