Vê? Minha cabeça aberta, na sua frente, entupida de merda. Olha bem, a que ponto cheguei. Vê, esse corpo estranho e nada uniforme, e as palavras que quase nunca saem nítidas. Cabelo por toda parte, e somente perguntas, sem muitas respostas ao alcançe. Antes, eu dificultava e deixava de ser clara por modismo. Gostava de ser questionada e de responder. Mas daí me viciei e hoje, simplesmente não consigo ser clara com muitas coisas. Muito menos comigo mesma. Vê? O que fui e o que sou hoje. Me sinto plantada, quase enterrada no chão, debaixo dele, não sei. Queria ter me arriscado um pouco mais. Podia talvez, ter gritado antes, ter histórias a contar. Podia ter me arriscado a sofrer mesmo, de cara ao vento, nua, ou totalmente vestida de menina má. Você tinha toda razão. Daqui a uns anos, vou dizer que... bem, eu nunca fiz nada demais.
Sinto falta do que nunca existiu. Acho que até hoje, você não percebeu que nunca fomos amigos. E essa admiração que voce nunca teve por mim existe, porque pelo menos pra mim, nunca demonstrou. Tenho deja vu quando me sento numa mesa onde você também está e quando começa seu discurso que me humilha, me rebaixa e me critica sempre. Orgulho? Pelo visto nunca dei mesmo. Ao contrário do que pensa, nunca fui a melhor da sala, nunca tive muitos amigos, nunca fui muito de conseguir me enturmar. Se lembra da vez que chorei na cozinha porque meu irmão mais novo não tinha coragem de levar a irmã com ele, quando saía com amigos? Meu mundo era meu quarto, um som e meus cadernos. E hoje, escuto que peguei vocês de surpresa com meu comportamento, porque sempre 'fui normal'. Por isso, não sou aceitável. Que seja, eu não pedi ninguém pra me aceitar. Se hoje, consigo me divertir com amigos ou com a pessoa que amo, não adianta ficar bravo. Não é assim que se mostra nada além da indignação ignora...
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